O enfrentamento às apostas ilegais no Brasil ganhou um novo instrumento tecnológico com o anúncio, nesta segunda-feira (19), da criação de um laboratório virtual voltado à identificação e ao bloqueio de sites clandestinos. A iniciativa é conduzida pela Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda (SPA-MF) em parceria com a Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL) e conta com a cooperação da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).
O anúncio foi feito durante painel realizado na Casa Brasil, dentro da programação da ICE Barcelona, um dos principais eventos internacionais do setor de jogos e apostas. O projeto entra em operação ainda em janeiro de 2026.
Embora apresentado agora ao mercado internacional, o laboratório virtual é resultado de um trabalho iniciado meses antes. Em setembro de 2025, SPA-MF, Anatel e ANJL firmaram o Acordo de Cooperação nº 4/2025, que estabeleceu as bases técnicas e institucionais para a criação de um ambiente físico e virtual dedicado ao combate estruturado à oferta ilegal de apostas no país.
Desde outubro de 2024, a SPA-MF já identificou mais de 25 mil domínios suspeitos de operarem apostas sem autorização no Brasil. Na fase inicial, cerca de 2 mil sites foram efetivamente bloqueados a partir de processos manuais, que envolviam captura de páginas, comprovação de transações financeiras e abertura de processos administrativos.
Com a entrada em funcionamento do laboratório virtual, esse fluxo passa a ser automatizado. A plataforma fará o monitoramento contínuo da internet, identificando novos domínios, registrando evidências digitais e mapeando meios de pagamento utilizados pelos operadores ilegais.
Desenvolvido pela empresa Intercity, o sistema utiliza tecnologia já aplicada no combate à pirataria de TV por assinatura. Entre as funcionalidades previstas estão a emissão de ordens eletrônicas de bloqueio de DNS aos provedores de internet vinculados à Anatel e a verificação automática do cumprimento dessas determinações, reduzindo significativamente o tempo de resposta do poder público.
Cooperação - A integração entre instituições públicas e privadas é um dos pilares do laboratório. Além da SPA-MF e da Anatel, o sistema se conecta a órgãos como o Conar e o Conselho Digital, que contribuem com informações sobre publicidade irregular em redes sociais.
Há também um módulo específico de cooperação com bancos e instituições de pagamento, que permitirá cruzar dados com perfis de fraude já identificados pelo sistema financeiro. O Banco Central do Brasil e a Polícia Federal participam da iniciativa, recebendo alertas sobre transações suspeitas e apoiando investigações relacionadas a crimes financeiros e ao mercado ilegal de apostas.
A proposta vai além da simples derrubada de sites. O objetivo é antecipar fraudes, dificultar o acesso dos usuários a plataformas clandestinas e desestimular economicamente a atuação de operadores não autorizados.
As autoridades envolvidas estabeleceram como meta reduzir em pelo menos 50% o mercado offshore de apostas ilegais até 2030. O modelo brasileiro dialoga com experiências internacionais bem-sucedidas, como iniciativas adotadas em países da América do Sul, a exemplo do Peru, que avançaram no uso de tecnologia e cooperação interinstitucional.
Entre os aprimoramentos em estudo estão o bloqueio de comunicações enviadas por sites ilegais aos usuários, como e-mails e mensagens de texto, além da adoção de estratégias diferenciadas em horários de grande audiência, especialmente em períodos que antecedem partidas de futebol.



